眠れる美女 – A casa das belas adormecidas

BREJETUBA: Tive a felicidade de encontrar esse livro no Sebo Veredas, aquele da rua do Buana, na primeira metade de 2011; uma edição belíssima da Estação Liberdade, que é das melhores e menos aproveitadas editoras deste país (creio), por inacreditáveis 16 reais. Lembro que voltei muito satisfeito para casa. De lá pra cá cheguei a comentar com alguns colegas, inclusive, e até o emprestei, mas eu mesmo precisei adiar a leitura devido a outras prioridades. Somente ontem pude lê-lo, finalmente, e o fiz com muito gosto.

“A casa das belas adormecidas” é a obra mais célebre do escritor japonês Yasunari Kawabata (1899-1972), em parte por ser a inspiração declarada de “Memória de minhas putas tristes“. A história da casa é já bem conhecida: trata-se de uma espécie de bordel clandestino destinado a satisfazer a vaidade e os desejos de homens idosos, “decrépitos”, de fraca virilidade. Aquelas que os aguardam no recinto são moças extremamente jovens, não raro donzelas, completamente sedadas. Os velhos clientes fartam-se, quase sempre de modo inofensivo, da nudez pueril dessas meninas que não vão se recordar de nada daquilo quando acordarem no dia seguinte. “Dormem como mortas”.

Pintura de Kawai Gyokudō, segundo o Google.

Gosto de imaginar que é esta a pintura que o senhor Eguchi percebeu em sua primeira visita à tal Casa, na sala de oito tatames sem “nenhum ar de mistério oculto”. Era ali que uma mulher miúda de mais ou menos 45 anos, em seu quimono de obi amarelo quase branco, servia-lhe com chá e instruções. Vê-se que a narrativa, logo a partir deste acanhado início, é atravessada de elementos tipicamente nipônicos. Atravessada, sim, semântica e sintaticamente, para muito além da descrição dos ambientes e dos trejeitos culturais.

A velhice e o encanto pelo feminino são temas bastante caros à arte japonesa, como bem sabemos. O que mais chama a atenção na literatura de Kawabata, porém, é o seu apelo dito neo-sensorialista, o shinkankakuha, do qual foi o representante mais destacado de sua geração.  ”A casa…”, se me permitem, é um livro sensualíssimo, avermelhado, iluminado fracamente e aquecido não pelo sol, mas pelo calor do corpo e das cobertas. Os tons rubros variam do carmesim das paredes de veludo, do escarlate das manchas de sangue e de batom, ao róseo dos seios, da tês branca  tocada continuamente por desejos reprimidos. Sobressai a textura da pele e dos cabelos, o cheiro dos cabelos e do hálito, a diferença dos perfumes, o calor do contato físico, o relevo feminino, a juventude fresca e a melancólica senilidade, o não-medo da morte. O velho Eguchi, de 67 anos, visita a casa das belas adormecidas cinco vezes, sempre de súbito, e cada menina que o recebe desacordada suscita no homem suas próprias reminiscências e indagações. Não é difícil perceber a influência do surrealismo ocidental, horror e encantamento diante de memórias e sonhos.

Yasunari Kawabata: "antológicas descrições de encontros sensuais com toques de fantasia, rememoração, inefabilidade do desejo e tragédia pessoal".

Apreender a dimensão lírica dos sentidos do corpo, arrisco-me a dizer, é uma capacidade que os asiáticos desenvolveram como ninguém mais. Só no Japão os exemplos dessa prerrogativa antecedem O Livro de Cabeceira, do sec. XI, e vão até o cinema de Naomi Kawase, nossa contemporânea.  No que diz respeito às influências do autor, estou convicto de que Kawabata deve muito às antigas japonesas, como Sei Shōnagon, não obstante a vasta tradição artística que o autor notadamente admira e da qual conheço apenas linhas gerais.

Se bem que tudo que deixo aqui são minhas impressões de leitor, de entusiasta, e a resenha não é mais que um exercício.

No mais, Kawabata é extremamente suave e, embora muito poético, perfeitamente verossímil. Na excelente tradução de Meiko Shimon, diretamente do japonês, a narrativa breve segue de modo sereno, mas nunca moroso. São 128 páginas para ler sem interrupções e sem pressa.

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One thought on “眠れる美女 – A casa das belas adormecidas

  1. [...] seriamente em estabelecer uma comparação entre este último livro e o anterior, “A casa das belas adormecidas“. Lê-los um em seguida do outro foi uma coincidência muito interessante. O que os autores, [...]

Lasu respondon

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