A felicidade conjugal

BREJETUBA: Por que escrevo sobre leituras? Em primeiro lugar, porque estende meu contato com os livros. Em segundo, porque me acalma. Por que em um blog, então, se tudo parece ser tão pessoal? Tire suas próprias conclusões, mas adianto que estou farto de que me digam como devo me portar em mídias sociais.

Não chamo isso que faço de “resenha” e, por enquanto, estou bastante flexível quanto ao rigor do ato. Meu único receio é que isso “simplifique”, “diminua”, a minha experiência a ponto do leitor duvidar da minha lucidez e do meu envolvimento. Ora, é um risco. Quero ser levado a sério, mas ainda não sei até que ponto. Ando muito displicente e isso me dá certa liberdade para tocar terrenos consagrados, como é o caso de hoje. Não me leve a mal.

Lev Nikoláievitch Tolstói (1828-1910) pouco antes de sua morte.

Lev Tolstói tinha 31 anos quando publicou sua primeira novela, ”A felicidade conjugal”. Segundo consta no prefácio da minha edição, o autor se arrependeu de tê-la entregue ao editor assim que recebeu as primeiras provas tipográficas. “Achou-a muito fraca, falsa, ruim mesmo”. Não sou tão taxativo, mas na maior parte sou obrigado a concordar com ele.

“A felicidade conjugal”, como o título supõe, é a história de um casal; mais do que isso, é uma visão do autor daquilo que deveria ser o matrimônio, ou ainda um caminho para que as uniões permaneçam estáveis. A narrativa se dá em primeira pessoa na voz da jovem Maria Aleksândrovna, a bela e inocente protagonista, a qual se casa por amor com Serguêi Mikháilovitch, homem mais velho e sábio que Maria, também bondoso e apaixonado. Esse livro de estreia é rico descrições bucólicas de cenários e personagens, especialmente em relação à natureza, o que faz jus à personalidade da narradora. É a história de sucessivas desilusões e descobertas da vida a dois.

Quem ler esta novela compreenderá imediatamente porque Nietzsche abominava Tolstói. Toda a obra do escritor russo, aliás, é permeada de exemplos moralizantes de cunho cristão. Eu, embora admire profundamente o filósofo alemão, não sou insensível ou hostil à solidez moral de um pensamento. Admiro, também, as subjetividades e tenho sincero prazer em tentar compreendê-las – não raro elas interferem na minha própria. Creio que essas explicação já bastam para deixar claro que meu problema não é com a moralidade do autor, mas com sua obra.

No caso de “A felicidade…”, cada dilema ou reflexão de Maria Aleksândrovna é ora uma etapa de imaturidade a caminho do crescimento humano, ora uma descoberta edificante; o mesmo acontece com os rumos da história. Isso é muito tedioso, se me permitem, mas nada que não pudesse ser compensado com a habilidade descritiva de Tolstói. Infelizmente não aconteceu dessa vez; com frequência os diálogos são previsíveis, as descrições forçadas, os personagens caricatos, e por aí vai. Acho difícil que se trate somente de perdas na tradução.

Por todos esses motivos eu ouso concordar com Tolstói quando ele diz que seu primeiro livro é ruim. Não sem reconhecer alguns méritos: a protagonista, por exemplo, é muito bem concebida apesar de sua narrativa fraca. Tem-se realmente a impressão de ouvir a voz de uma jovem ainda inocente e dá para percebê-la amadurecer, tirando da vida os ensinamentos que lhe convém. Há ainda outros belos achados (“entusiasmo selvagem”!), mas nada que baste para colocar “A felicidade conjugal” entre os grandes livros do autor.

Algo particularmente gracioso que vou guardar na memória são os momentos de Maria Aleksândrovna ao piano.

Minha edição do livro contém ainda uma obra, “O Diabo”, um dos últimos escritos de Tolstói. Eu provavelmente irei falar sobre ele na próxima postagem.

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One thought on “A felicidade conjugal

  1. [...] contrário de “A felicidade conjugal“, este conto é um dos trabalhos da maturidade de Tolstói; quando “O diabo” foi [...]

Lasu respondon

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